Cheguei no cursinho cinco minutos atrasado para a primeira aula. Não era nenhum problema pois ás 19:30 tinha outro sinal para os atrasados entrarem e assistirem a outra metade daquela aula. Nesse dia era de redação, e eu realmente não gostava de perder aulas de redação, pois além de gostar escrever eu queria aprender como se fazia isso de acordo com as provas do vestibular.
Cumprimentei o senhor porteiro que era de estatura baixa, cabelos pretos provavelmente tingidos e penteados para trás e um rosto de aparência de uma pessoa bastante vivida, com rugas e sinais da idade. Devia ter lá seus 60 anos. Era um homemzinho simpático que ficava ali na frente abrindo e fechando o portão manual para os alunos que chegavam ou saiam após o primeiro sinal. Já havíamos conversado outra vez quando eu e outro colega falávamos de bebida e o senhor disse gostar bastante de uma caipirinha e achei aquilo bem espontâneo, então conversamos sobre tipos de caipirinha e sempre que passava pela entrada do colégio fazia questão de dar um boa noite para o senhor. Neste dia não foi diferente, mas dessa vez parei para perguntar seu nome e ele respondeu - “Me chamo Grinauro Batista Magalhães” ou um outro nome do meio qualquer que não me lembro agora mas acho que é Batista. – “Boa noite seu Grinauro” despedi-me e entrei no colégio.
Nesse tempo caminhei até a cantina do colégio. Os vários outros alunos atrasados estavam sentados por lá também ou nos bancos encostados a parede da entrada e alguns até lá fora.
O legal dessa cantina de onde eu faço cursinho é que tem uma televisão que fica ligada e eu sempre aproveito para assistir um pouco se tiver passando algo de bom em momentos como esse. Na noite passada eu havia assistido o jornal nacional junto com o homem de cabelos longos como os meus, um pouco abaixo da orelha que provavelmente haviam loiros no passado e agora eram de uma cor indefinida entre um loiro fraco e um grisalho recém chegado, na idade dos 40 que aparentava ter. Tinha uma outra moça que trabalhava lá e que eu estava em dúvida se era irmã ou esposa dele, mas provavelmente era irmã pois tinha uma senhora mais velha que era mãe da moça que ia as vezes lá. A moça tinha os cabelos loiros escuros, um rosto bonito e um corpo maravilhoso. Do balcão só podíamos ver da cintura para cima e ela ostentava belos seios e um quadril maravilhoso e quando ela se afastava um pouco para ir na cozinha (que fica atrás da cantina) podíamos ver suas pernas bonitas e concluir que ela realmente era muito gostosa e fazia essa façanha sendo bonita ao mesmo tempo. Um único defeito era o nariz um pouco estranho, mas nada que estragasse o resto de sua aparência beirando a perfeição. Aparentava ter uns vinte e poucos anos, mas com um rosto de idade um pouco mais madura, sem ser menos belo por isso.
Duas notícias seguidas passaram no jornal da noite anterior. Em uma delas quatro jovens de classe-média e boa vida do RJ que haviam covardemente atacado e espancado uma empregada em um ponto de ônibus durante a madrugada anterior quando esta saia para ir ao médico e a outra notícia de um funcionário da polícia civil que havia tentado furar a fila de um caixa eletrônica e ao ser repreendido por um funcionário de uns 60 anos acertou um soco no senhor que caiu, bateu a cabeça no chão e veio a falecer mais tarde. Fatos que deixariam revoltado qualquer cidadão, e que nos deixaram da mesma forma.
Eu e o homem que trabalhava na cantina trocamos algumas palavras injuriadas sobre as barbaridades e lamentamos o fato de coisas assim acontecerem em nosso país, mas provavelmente estariam acontecendo no resto do mundo também. Uma grande pena.
Assim sendo pensei que ele fosse me reconhecer hoje. Então parado ali na diagonal próxima a cantina e olhando a Tv com certa distância vi ele fazer um sinal de positivo na minha direção. Retribui e disse “bom” como cumprimento. Então vejo ele fazendo o mesmo sinal de positivo, sem abaixar o dedo para o lado ao meu. Olhei para trás e vi que era o inspetor do colégio passando e calculei que no momento em que o sinal foi para a minha direção ele devia estar passando atrás de mim.
Senti uma vergonha tremenda e uma vontade de sumir dali. Essas situações eram realmente horríveis, confundir os cumprimentos. Me senti um imbecil e fiquei parado com vontade de que aparecesse um buraco e eu pudesse sumir. Sempre ficava assim nessas situações constrangedoras. Fiquei em dúvida se ele havia feito dois sinais de cumprimento, um para mim e outro para o inspetor, mas tive quase certeza que era só para o inspetor.
Mesmo assim decidi enfrentar minha vergonha e me aproximei mais de perto da Tv. Começou uma novela péssima e perdi o interesse. Sentei-me em uma das cadeiras que ficavam a primeira fila em frente a cantina e virei de costas para o balcão. A vergonha ainda estava ali, mas não queria sair e ir para outro canto, até porque nem tinha outro canto no colégio. Abri minha bolsa e tirei “Tristessa” de Jack Kerouac que o Melhado havia me emprestado a uns tempos atrás mas que só havia começado a ler agora. Livrinho fino e bacana, não chega a ser um dos clássicos do Kerouac mas me pareceu bom até ali. Estava na metade, abri minha página e me pus a ler. Cada linha que eu lia me lembrava a situação do cumprimento e voltava a me sentir um imbecil. Olhei no relógio do celular e ainda faltavam cinco minutos para o sinal tocar. Li mais uma página, guardei o livro e sai de fininho, como se não tivesse acontecido nada demais. Mas eu sabia que havia, e o homem quase grisalho da cantina também, e provavelmente devia estar me achando um idiota assim como eu mesmo estava. Era isso que dava tentar ser sempre simpático, ora ou outro uma bola fora acontecia.
Fui até o banheiro e ajeitei meu cabelo em frente ao espelho. Não estava nada bem, com um aspecto despenteado e desarrumado mas de uma forma nada boa. Minha tática de ajeitar o cabelo com as mãos após o banho não estava mais dando certo, teria que apelar para a escova ou algo assim. Pente não era comigo.
Sai de lá e caminhei até a sala. O sinal tocou e uns quinze alunos atrasados entraram comigo. Sentei-me e assisti a aula de redação. A professora era uma gorda de uns 40 anos. Explicava bem e era uma aula interessante, sem muitos rodeios ou graças nem totalmente séria.
Depois duas aulas de geografia, com uma professora magra que aparentava ter a mesma idade da outra, os cabelos loiros foscos e com aspecto de palha e um rosto magro. Era uma boa aula também, falava sobre crescimento populacional e desenhava gráficos no quadro. Eu me dava bem com geografia e as aulas do cursinho me pareciam bem melhores. O único problema era que com o grande número de alunos, aproximadamente uns setenta ou oitenta praticamente todos tinham vergonha de fazer as perguntas em voz alta, então a aula era constantemente interrompida por bilhetinhos entregues ao professor que os lia em voz alta e respondia a questão. Era o cúmulo da timidez, não custava nada levantar o braço e falar. Santa vergonha desse povo.
Durante a aula me senti constantemente mal. Tinha acordado com gripe ás duas da tarde e fungava com o nariz o tempo todo, com um “sniff, sniff” irritante e tossia com bastante freqüência. Me sentia cansado e com frio, fazia tempo que não pegava uma gripe.
As duas aulas passaram e o sinal do intervalo tocou. Liguei para minha mãe me buscar, peguei minha bolsa e fiquei sentado com o Igor nos bancos da cantina. Então o sinal tocou de novo e todos eles entraram na aula. Fui para a frente do colégio, me despedi de Seu Grinauro e tive medo de já ter confundido seu nome.
Fiquei lá esperando e então a professora de geografia que havia acabado de me dar aula entrou em seu Ford-ka vermelho com um senhor que aparentava ser bastante velho no banco do passageiro e que segurava um cachorro poodle nas mãos. Ela se despediu de mim com um aceno e retribui dizendo um – “Boa noite professora”. O senhor que eu nunca havia visto na vida acenou também. Saiu com o carro e ao andar um pouco de dentro perguntou se eu não queria uma carona pra algum lugar. Agradeci e disse que minha mãe já estava para chegar.
E uns dez minutos depois ela chegou. Pedi pra passarmos no supermercado porque queria comprar umas sopas instantâneas mas ela estava sem dinheiro. Então buscamos meu irmão na casa de um amigo, em um prédio que ficava perto de outro supermercado e ele me emprestou um dinheiro com o qual comprei duas sopas estantaneas, uma de Tomate e queijo e a outra de espinafre e queijo. No mesmo dia pela tarde eu havia visto uma propaganda daquela sopa e enquanto fazia já em casa percebi como as propagandas podem realmente fazer a diferença na hora que você fica com fome. Cada sopa dava pouco mais de meia xícara, uma quantidade equivalente a 250 mls.
Enquanto esperava a água ferver comi um pedaço de favo de mel que tinha na geladeira para ajudar na gripe. Depois tomei a primeira sopa de tomate e queijo com torradas e ela era realmente muito boa e saborosa. Depois fervi a água novamente e tomei a segunda sopa, de espinafre e queijo, que era um pouco mais cremosa e uou! Era melhor ainda.
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