domingo, 3 de junho de 2007

4 de junho de 2007 – 01:00

Saí para a aula do supletivo bem agasalhado pra não sofrer com o frio como tinha acontecido na última terça-feira. Coloquei duas meias pra esquentar os pés, meu moletom preto de gorro com estampa do CBGB e minha jaqueta jeans por cima. Levei apenas uma caneta porque como era uma sexta-feira ia sair depois da aula. Minha mãe chegou do trabalho e me levou, me poupando o trabalho de pegar o ônibus na hora do rush em plena sexta.
Não estava tão frio quanto eu pensava, alias não estava nem frio. Alguns alunos estavam sem agasalho e outros apenas com jaquetas por cima para evitar contra-tempos. Eu que havia passado um frio danado dias atrás e vim prevenido estava começando a sentir o efeito do calor. Horrível.
Depois de um tempo a sala estava lotada. A aula de física mal começou e a linda Camila me chamou e quando virei para trás ela apontou a porta. Olhei e lá estava o Rodolfo fazendo sinal pra mim ir lá fora. Levantei sutilmente e sai da sala.
- Vamos jogar sinuca ae meu, eu já fiz essa prova de manhã no nome de um amigo meu e ta bem fácil. Ele disse.
- Beleza, vamo sim. Só que eu não manjo nada de física. Deixa só eu ver se a Camila tem a cola.
Camila estava sentada na primeira carteira logo ao lado da porta. Falamos baixo: – Ooo Camila, você tem a cola? – Ahn, não? – “Tenho, tenho”. – Então valeu.
Enquanto estávamos na porta o diretor do supletivo, que era conhecido da família do Hermano passou.
- De que sala vocês são?
- Dessa.
- Então entra e vai assistir aula.
- Beleza, já vamos.
Esperamos ele sumir da vista e zarpamos pra fora do colégio. Andamos até o primeiro bar que ficava na mesma quadra e a mesa de sinuca estava ocupada por uns velhos bebedores.
Eles estavam terminando a partida. Esperamos pra ver se ia vagar. Colocaram outra ficha. Desistimos e saímos até outro bar. No caminho encontramos o Lucas, o careca meio-louco que estudava com a gente. – Vamo pro bar joga sinuca?
- “Beleza, vamo vamo.” É aula do que hoje? – Física.
Continuamos andando até umas cinco quadras pra frente. Reto, direita, esquerda, reto. Chegamos no bar e compramos duas fichas. Ninguém tinha dinheiro pra beber, na verdade eu tinha mas ia sair depois da aula, então ficamos só na sinuca.
O Lucas estava sem grana, quem pagou foi eu e o Rodolfo. Custava 1 real cada ficha e cada um pagou uma, então jogamos a primeira partida.
Ele começou ganhando depois virei, levei pro bolão e ganhei. Agora era eu contra o Lucas. Comecei perdendo, recuperei, perdendo de novo, e ganhei. O Rei da mesa.
Compramos mais duas fichas e jogamos eu e o Rodolfo de novo. Até ali nas duas que tinha ganhado tinha jogado com as pares. Dessa vez ele matou uma par e eu virei ímpar. Sinal de azar, e deu azar. Comecei perdendo de lavada e quando ficaram só as minhas bolas na mesa ele ficou “snookado” várias vezes. Recuperei e fiquei algumas atrás, mas ele matou o bolão e me tirou da mesa. Malditas bolas ímpares.
Então jogaram ele e o Lucas, que não tinha vencido nenhuma com a última ficha. Era o que o tempo permitia porque logo já ia ser nosso intervalo e tínhamos que voltar. Lucas ganhou a primeira do Rodolfo e voltamos pro colégio.
Na entrada o diretor, que chamava Juca nos viu e fez uma cara feia de reprovação. Fingimos que não era conosco e passamos reto. O intervalo passou e entramos na sala. Mais um pouco de aula, o professor nem reparou que tínhamos saído, e se reparou não falou nada. Mais um pouco de aula, um pouco de balela, ensinou as coisas finais e aplicou a prova. Li as questões e comparei com a cola na mão. Todas erradas. Tinha que fazer por mim mesmo e sem saber quase nada, e fiz. Entreguei a prova e pedi pra ele corrigir na hora. Acertei sete questões de dez, tinha que acertar no mínimo seis. Ótimo, missão cumprida.
Fui pra frente do colégio e liguei pro Hermano. Ele e o Pedrão estavam no chá das cinco, não estava afim de ir lá. Disse pra eles virem até o bar da keiko, que tinha cerveja barata e ficava em diagonal e bem perto do meu supletivo. Ele me ligou de volta e combinamos de nos encontrar no meio do caminho. Estava chovendo, tinha que esperar pra sair a pé.
Fiquei conversando com um colega que estava de moto e também tinha que esperar. O diretor de dentro do colégio ficou apontando um abridor de garrafas que servia como seu chaveiro e balançando em minha direção.
- Você não é japonês mas abre o olho viu. Falou olhando pra mim ainda balançando o maldito abridor e com cara séria.
- Beleza.
- Você tava indo bem e agora começou a sair da linha.
- Beleza.
Não era um cara cuzão, mas também não era gente boa. Essas tentativas de disciplina em um supletivo eram no mínimo engraçadas. Um lugar onde só estudavam a nata dos estudantes. Ou senhores e senhoras de meia-idade que pararam de estudar na juventude, ou jovens de vinte e poucos anos que haviam repetido diversas vezes. Eu era um deles, mas com a vantagem de ter só dezessete.
A chuva parou, me despedi do cara da moto e sai andando a pé pelas ruas do centro de Londrina. Cheguei na avenida Higienópolis e desci em direção ao pátio San Miguel onde ia me encontrar com eles. Uma padaria vinte e quatro horas que ficava na avenida mais movimentada da cidade e funcionava como um ponto de encontro para jovens baladeiros, universitários e afins. Um péssimo público diga-se de passagem.
Quando estava quase chegando lá encontrei o irmão de um amigo que não via faz tempo e ele estava estacionando seu carro e me chamou. Era um cara gente boa mas eu não lembrava seu nome, o que era péssimo pois tinha que falar com ele chamando-o de “cara” e “brother. Conversamos um pouco enquanto ele manobrava o carro e no exato momento ele tentava prestar atenção em mim e estacionar ao mesmo tempo raspou no para-choque de um dos carros estacionados. Um grupo de meninas se aproximava e uma delas disse – Pegamos no flagra em. É, pegaram mesmo. Mas não tinha acontecido nada no carro delas. No carro do meu conhecido uns arranhões. Seguimos andando até o pátio juntos, nos despedimos e ele foi para o bar que ficava em frente,onde também se reuniam um monte de jovens burgueses.
Cheguei no Pátio e nada deles. Liguei e disse que já estavam chegando. Passaram uns dez minutos e nada. Liguei de novo.
- “Estamos vendo você”. Ok, agora só mais três minutos ou menos se eles já estão me vendo. Nada.
Encontrei uma conhecida que estava voltando da faculdade. Ficamos conversando. Era gordinha e baixinha, nada atraente e nada bonita, também não chegava a ser horrível. Mas até que era gente boa. Disse que estava esperando o Hermano e ela me apontou ele do outro lado da calçada.
Ficamos conversando um pouco, ela foi embora e se despediu de nós. Pedrão estava desanimado porque tinha que trabalhar no dia seguinte e seu ônibus passava ali perto. Hermano ainda ficou tentando convence-lo a ficar mas ele estava decidido a ir embora. Acompanhamos ele até o ponto e no caminho encontramos o Padilha, que era amigo do Juca e um cara legal. Ele disse que ia ter uma festa de república e Hermano se convidou para irmos. Achei que fosse folga do Hermano mas o Padilha disse que não tinha problemas. O ônibus do Pedro chegou, e numa ultima tentativa o Hermano tentou fazer ele ficar mas não teve sucesso.
Descemos ao pátio de novo com o Padilha e logo depois o Maurão, também amigo do Juca chegou. E logo outros amigos deles, um cara vestido a caráter para a festa que chamava glamour decadente e tinha a idéia de as pessoas irem vestidas com roupas espalhafatosas (o que não obteve muito sucesso pois menos de ¼ das pessoas estava vestida assim) e duas garotas, uma delas patty com uns peitos incríveis.
Decidimos ir até a tal festa e ver como estava na frente. Maurão não tinha pego dinheiro, fomos até um posto onde passando o cartão o atendente dava o dinheiro cobrando 10% do valor retirado.
No posto um monte de carros e pessoas ouvindo música e bebendo. Era uma moda das cidades escrotas como Londrina, ficar bebendo em postos de gasolina e ouvindo suas péssimas músicas disputando quem tinha o som mais potente. Um desses grupos jogou uma lata de cerveja em direção a rua e ela pegou no capô do carro do Padilha onde estávamos (Maurão estava sozinho no seu próprio). O idiota que tinha jogado disse que não havia acontecido nada, Padilha olhou com uma cara feia pra ele e seguiu. Quando paramos e olhamos não havia acontecido nada.
Mauro sacou seu dinheiro e seguimos até a tal república. Na rua em frente alguns carros parados, não parecia que havia muita gente. Chegamos na porta e encontramos o Renato com os Punhetas e o André. Ele nos disse pra entrar e dizemos estar receosos por só ter 13 reais cada e a entrada custar 15, com as bebidas liberadas. Guilherme disse pra mim falar com o Gazzoni que estava na portaria e ver se não tinha como entrar por dez. Falei com ele e ele disse que não podia pois só estava cuidando. A garota dos peitos bonitos me emprestou dois reais e entramos todos.
A festa estava lotada e tocava música ruim. Uma parte estava coberta com lona por causa da chuva.
Tomamos champagne barato e embalamos na cerveja. Passei a festa quase inteira em frente ao freezer onde estavam servindo as cervejas, com exceção de quando ia mijar e duas ou três vezes quando fui ver o Renato dormindo do lado de fora e o Hermano no lado de dentro, dormindo com um cigarro apagado na boca.
Durante a festa nada de bom exceto a cerveja. Bêbados passando, vários amigos. Eu só tentava manter meu copo cheio e aproveitar o que tinha pago, o que não foi difícil porque tinha muita, muita cerveja. De marcas vagabundas mas não fazia diferença.
Logo eu vi a Carol, uma menina linda que eu achava o máximo. E vi também a Fer, conhecida minha brincando com ela e dizendo que eu estava la, o que ela não devia dar a mínima. Ela estava usando uma saia esquisita preta e uma blusa branca que deixava ela mais bonita. Apesar da saia ser feia ela continuava maravilhosava e provavelmente ficaria com qualquer roupa. Cabelos curtinhos ao estilo chanel, rosto angelical e um corpo muito bem ajeitado.
Logo Renato e Hermano desmaiaram dormindo e fiquei meio sozinho. Juntava nas rodas de amigos e bebia cerveja. Basicamente isso, não me sentia bem mas resolvi falar com a Carol do mesmo jeito. Tinha que tomar corajem antes. Ela passou e quase fui. Desisti. Um frio na barriga, peguei mais um copo de cerveja e cruzei ela sozinho. Era agora ou nunca.
A parte que me lembro da conversa foi mais ou menos o seguinte:
- Oi Carol
- Oi, você chama Gabriel né?
- Como você sabe?
- A Fer já me falou.
- É que ninguém me chama de Gabriel, e só de Biel. Por isso estranhei.
- Ah eu deduzi que era seu nome.
- Posso te falar uma coisa?
- Pode, claro.
- Você é uma das meninas mais lindas que eu já vi.
- Ah, obrigada. Ela disse e deu um sorriso lindo.
- Sem brincadeira, você é linda demais.
Falei isso e peguei na mão dela. Era macia e estava quente, apesar do frio.
- Então eu vou pra lá,a gente se vê. Ela disse
- Ok, beijo.
A sensação de fracasso me atingiu em cheio. Me senti como um grande idiota, e um peso de culpa caiu sobre mim. Fui até o Hermano que estava dormindo com meu moletom de gorro, pois tinha esfriado bastante. Fiquei lá sentindo a sensação de derrotado ao lado dele. As pessoas se divertiam. Algumas dançavam, outras bebiam. Era uma merda não se divertir.
Começou a chover a maioria se abrigou embaixo da lona e alguns no lugar onde estávamos, que era embaixo do telhado da casa. Entre esses alguns a linda Carol e suas amigas, e os gêmeos e o André. Fui pegar mais cerveja no freezer que ficava logo ao lado. Olhei pro lado embaixo da proteção e vi a Carol beijando o André. Ela não era mesmo pra mim. Jamais seria. Jamais qualquer garota linda seria pra mim, eu só tinha que parar de sonhar e me acostumar com isso.
Acordei Hermano e saímos para frente. Renato ressurgiu do nada. Muitas pessoas estavam indo embora. Dois gays que já conheciam o Hermano nos chamaram e disseram para irmos ao Potiguá com eles. Não tínhamos mesmo como ir embora, Padilha e Maurão tinham sumido. Entramos no táxi com eles, eu Hermano e Renato e seguimos para o Potiguá.
Não tínhamos mais um real sequer e o gay mais gente boa que chamava Gustavo pagou tudo. Descemos e ficamos tomando cerveja e jogando pebolim. Eu estava bêbado e só conseguia girar o pebolim sem parar. Gustavo disse pra jogar direito e falou: - Ficar girando é coisa de mulher, para com isso. Então tentei jogar ao certo e o outro veado era a minha dupla, chamava Bruno e era mais esnobe. Ficava bravo a cada lance perdido por mim. Perdi com todas as duplas que disputei. Gustavo falou de brincadeira para passar debaixo da mesa pra pagar a derrota. Só eu passei. Me arrastando, completamente bêbado e provocando risadas.
Renato tinha desmaiado numa das cadeiras do Potiguá. Gustavo disse pra irmos a casa dele. Abandonamos o Renato lá. Hermano ficou receoso por isso, não achava uma atitude correta. Eu também não achava, mas ele já havia dado mancadas bem piores, estávamos bêbados e o Gustavo estava pagando tudo. Claro que ele tinha segundas intenções com a gente, dava pra perceber. Mas minha idéia de bêbado era simples: Beber na casa dele e a um primeiro assédio sair.
E foi o que fizemos. Ele fritou hamburguêrs e comemos. O outro gayzinho, Bruno desmaiou em um colchão que estava na sala. Era um apartamento num prédio de flats do centro da cidade, pequeno mas luxuoso e bem arrumado. Tomamos vinho, conservado chileno. Depois de um tempo tomando vinho ele disse que queria beijar o Hermano e ele resistiu. Depois disse pra mim e fiz o mesmo. Dissemos que ele era um cara gente boa mas que não gostávamos de homem. Ele entendou mas pareceu um pouco magoado. Continuamos bebendo vinho e vendo o dia nascer. Logo depois ele pareceu irritado com um pouco de brincadeira e fomos embora. Não lembro como chegamos a casa de seu avô. Hermano disse que fomos andando mas essa e outras cena da noite eu apaguei da minha memória. Acordei no outro dia, sai do quarto e encontrei com ele.
- Que horas são? Perguntei.
- Cinco e meia.
- Ta brincando né?
- Não, é sério. Olha no relógio ali.
Olhei para o relógio de ponteiros na parede e eram mesmo cinco e meia da tarde.

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