terça-feira, 29 de maio de 2007

29 de maio de 2007 – 23:52

Entrei no banheiro e liguei o chuveiro para tomar banho e ir para o supletivo. O maior problema de casa era esse chuveiro. Saia pouca água e não esquentava direito, então tinha que abrir só um pouco e agüentar tomar banho num dia frio. Era horrível pra mim porque sempre gostei de tomar banho quente. Muito quente, em qualquer estação.
Me vesti e coloquei apenas uma camiseta e meu agasalho preto de gorro com estampa do CBGB por cima. Estava um pouco frio, mas não aparentava que fosse esfriar mais.
Me preparei para pegar o ônibus, então minha mãe ligou e disse que poderia me dar uma carona. Logo depois ela chegou e depois de passar pegar meu irmão me deixou no supletivo. “Não vai gastar os dois reais que sobraram em”. Me falou.
Ainda eram umas 6:30 e só tinham chego uns três alunos. Geralmente os outros chegavam em cima da hora, ou depois de a aula já ter começado. Eu tinha que esperar.
Sentei no mesmo lugar de sempre e um tempo depois chegou um cara que sempre sentava na diagonal atrás de mim. Era tudo sempre igual. Abri meu livro, “Numa Fria” do Bukowski que tinha emprestado do Hermano e li um dos contos. Levantei e dei umas voltas fora da sala. Pensei em comprar uma coca-cola e depois desisti. Então pensei de novo e decidi comprar. Mas me arrependi pelos R$ 1,70 gastos. Estava quente, mesmo com o frio eu fazia questão de coca-cola gelada. Voltei pra sala para ler o livro e matei quase tudo num gole só.
Depois de um tempo os alunos foram chegando e a aula começou. E depois com a aula em andamento a sala ficou cheia. Olhei pra trás e ela tinha chegado e sentada no mesmo lugar de sempre. Linda e maravilhosa, Camila era realmente demais.
A aula passou. Era geografia, o professor era gente boa. Era jovem e vestia roupas arrojadas, usava óculos de armações discretas e uma barba um pouco crescida. A matéria até que era tranqüila. Mas eu não estava com o mínimo saco pra prestar atenção. Então fiquei conversando com um colega meio chato que às vezes sentava ao meu lado para ficar falando sobre sua banda, sobre as coisas que fazia no final de semana, sobre um amigo que tínhamos em comum e me convidando para sair no final de semana. Eu só concordava e fazia alguns poucos comentários monossilábicos tentando não ser cuzão. Mas ele pelo jeito me achava simpático porque a muito essa cena se repetia. Eu também não o achava tão chato, mas falava sempre sobre as mesmas coisas e da mesma forma.
O intervalo chegou e saímos para a frente do colégio. Fiquei conversando com o Rodolfo, um velho conhecido meu que assistia à aula com seus óculos de aros pequenos e usava uma jaqueta amarela por cima das muitas outras blusas. Era um cara gente boa. O frio lá fora estava forte e eu o sentia passando entre meu único casaco e depois entre a camiseta.
Camila chegou depois cobrindo o rosto. Perguntei porque ela estava com as mãos no rosto, se era pelo frio e ela disse que não. Tirou e disse que estava se sentindo horrível e contou uma história, que tinha usado um creme pra espinhas e ele tinha ressecado sua pele e ficado horrível e ela tinha ido ao dermatologista e ele tinha dito que a pele dela era sensível e outras coisas do tipo. Depois de ela falar deu pra perceber que estava um pouco ressecado, mas nada que mudasse sua aparência perfeita. Ela era linda e espontânea, tratava todo mundo bem e tinha um dos sorrisos mais doces que eu já tinha visto. Logo depois chegou o Lucas, que era totalmente careca e meio louco e boa gente. Falava uma coisa e de uma hora para outra trocava o assunto, então voltava para o assunto de antes e ficava nesse zigue-zague. Também achava que em todo lugar tinha paquera e que todas as garotas estariam dando mole para alguém em todos os momentos. Era visivelmente tentado pela Camila, e uma hora onde ela foi ao banheiro perguntou pra mim e Rodolfo: – “Pra quem de vocês dois ela ta dando mole?” Só demos risada e ela voltou, e o assunto acabou.
Todos os dias no supletivo uma cola passava entre a sala inteira. Não sei como nem quem conseguia as questões e as letras referentes corretas e passava, e em quase todas as vezes dava certo. Normalmente eu não precisava daquilo, eram matérias fáceis. Mas como não tinha prestado atenção na aula e não estava sabendo nada escrevi na palma da mão.
Ficamos mais um tempo fora e depois entramos. Mais uns dez minutos de aula e ele pediu para que formássemos as filas. Depois de tudo organizado deu mais umas dicas e distribuiu as provas. Fui lendo e colocando as respostas da cola. Lia para ver minha opinião e a questão primeiro e depois se a cola batia com a alternativa. E em todas as questões batia.
Então terminei e esperei um pouco. Não gostava de ser o primeiro a entregar a prova. Não demorou muito e dois caras entregaram. Levantei, entreguei, cumprimentei o professor e saí.
Eram umas 9:20.Liguei pra minha mãe e pedi pra ela me buscar, ela disse que ia demorar uns vinte minutos. Fiquei conversando com os alunos na frente. Depois entrei e fiquei lendo. Liguei pra ela de novo vinte minutos depois e disse que já estava indo.
Fiquei esperando na frente. Quase todo mundo já tinha ido embora. O frio estava de rachar.
Passou mais uma meia hora e todos foram embora. O porteiro fechou a escola e o dono perguntou se minha mãe já estava chegando. Disse pra não se preocupar, ele deu boa noite e foi embora. Liguei de novo para minha mãe e nos xingamos. “Desliga essa porra que eu já to indo Gabriel” ela disse. “Vem logo caralho” respondi.
Ainda estavam em frente a escola uma garota loira, nem feia nem bonita com uma moto estilo Jog. Depois que só ficamos eu e ela chegou um carro do tipo caminhonete, uma Pampa com seus conhecidos, familiares ou algo do tipo. Desceram e ajudaram-na a colocar a moto na garupa da caminhonete. Depois de uns dez ou quinze minutos tentando firmar a moto lá em cima conseguiram e foram embora.
Fiquei sentado em frente a escola fechada lendo o Buk. O frio parecia aumentar e era estranho virar as páginas com as pontas dos dedos geladas. Passaram dois moleques conversando, um deles dizia em voz alta que ia ser promovido no emprego da academia e ia sair com tal garota, o outro falava mais baixo, concordava e perguntava sobre os fatos.
Uma hora depois de eu ter ligado a primeira vez minha mãe chegou. Nos entreolhamos de caras feias e entramos no carro. Eu reclamei sobre a demora depois ela reclamou e disse não ter obrigação de me buscar. Coloquei o cd do Jesse Malin no rádio e passamos o resto do trajeto calados. Em casa já estava tudo bem. Meu irmão dormia no sofá, ela cozinhou arroz, fritou um ovo e cortou e temperou uma salada de tomates. Eu fritei os filés de frango e comemos tomando coca-cola que ela tinha comprado. Dessa vez estava gelada.

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